EX-DETENTOS ABREM EMPRESA E FATURAM CERCA DE R$ 1 MILHÃO AO ANO
Em nossa sociedade há a descrença de que os presos podem ser preparados para o retorno a liberdade em razão de vários fatores negativos que envolvem os presídios brasileiros, porém a notícia abaixo demonstra que se houvesse políticas públicas voltadas para esse fim.
Para quem deseja realmente seguir um novo caminho as coisas podem ser diferentes, será preciso coragem para vencer os desafios.
Incubadora
capacita egressos sem emprego e que optam pelo empreendedorismo
09/04/2013
06:00 hs
Preso por roubo de carro e uso de entorpecentes, Fernando
Figueredo trabalhou durante dois anos dentro do presídio costurando bola para
uma ONG – uma atividade profissional comum nas penitenciárias brasileiras. O
salário mensal era de R$ 100.
Foi com essa remuneração que sustentou
sua mulher e três filhos. Na tentativa de buscar uma renda maior, ele
participou de todas as oficinas oferecidas na prisão. Apesar do conhecimento
acumulado, Figueiredo teve dificuldades para encontrar um espaço no mercado de
trabalho. A solução foi partir para o próprio negócio, que se transformou anos
depois em uma cooperativa de reciclagem em Brasília. Hoje Figueiredo
fatura cerca de R$ 1 milhão ao ano.
Divulgação
Fernando Figueredo, criador da cooperativa "Sonho de Liberdade", com os móveis produzidos pela sua equipe
Figueiredo passou seis anos e seis
meses preso e conta que se surpreendeu com a dificuldade para conseguir emprego
após cumprir a pena, há sete anos. “Não imaginava que o preconceito era tão
grande lá fora. Pedia a Deus todos os dias para mudar minha história e não
voltar ao crime”, relata Figueredo.
Sem emprego, ele se juntou a dois colegas e montou uma pequena
marcenaria para reciclar madeira velha e transformá-la em móveis. Também
costurava bola para empresas. Eram esses os primeiros passos da cooperativa
“Sonho de Liberdade”.
“Eu e alguns colegas já tínhamos
discutido a possibilidade de abrir uma empresa caso o mercado fechasse as
portas para a gente. Só tínhamos três caminhos: conseguir emprego, abrir uma
empresa ou voltar ao crime. Ficamos com a segunda opção”, explica ele.
Não damos oportunidade para quem tem currículo
bom e está com ficha-limpa. Oferecemos vagas para quem precisa mudar de vida
como eu precisei
Hoje com 80 pessoas – a
maioria delas ex-presidiários e detentos em regime semi-aberto –, a cooperativa
produz móveis, fabrica bolas e tritura madeira para transformá-la em
combustível. Na lista de clientes da empresa, está a multinacional Bunge e
grandes empresas de tijolos, destaca Figueredo.
Para começar o negócio não foi necessário
um grande aporte. Tudo foi tirado do lixo e comprado com a reserva financeira
dos cooperativados da empresa. “A gente pegava a madeira na rua, transformava
em móvel e vendia.”
Com o crescimento do negócio, a
cooperativa passou a receber aporte de grandes companhias interessadas na
reabilitação de detentos e egressos, como o Banco do Brasil, que, no final de
2012, financiou a construção da fábrica a partir de um capital de R$ 70 mil.
“Não damos oportunidade para quem tem
currículo bom e está com ficha-limpa. Oferecemos vagas para quem precisa mudar
de vida como eu precisei. Não estamos investindo em banco, estamos investindo
em vidas”, reforça Figueiredo.
Nova
startup
Conseguir um emprego após ser preso não foi dificuldade para o pequeno
empresário Rogimar Rios, 35 anos, dono da startup (jovens empresas do ramo
tecnológico) Xlion. No entanto, ser empregado não estava nos planos do
empreendedor.
Divulgação
O empresário Rogimar Rios desenhando o layout da sua startup
Xlion, de monitoramento de vendas
Após
ficar preso durante dois anos por tentar assaltar um executivo, Rios vendeu
temperos com o seu pai na rua, trabalhou como plantonista em eventos
imobiliários, vendeu portões elétricos e, por último, atuou em uma empresa de
imóveis planejados.
Foram nesses dois anos e meio trabalhando que ele juntou dinheiro
para abrir sua primeira loja de móveis, de apenas 270 metros quadrados na
capital paulista. Com o sucesso do empreendimento, abriu uma loja maior de
móveis planejados, desta vez sob a bandeira de uma rede conhecida.
Em dois anos e meio, o negócio valia R$ 3 milhões, conta Rios. A
surpresa, contudo, veio quando o empresário apareceu na mídia contando sua
história de superação como empreendedor e ex-presidiário.
“A empresa me chamou e me proibiu de
vincular a marca ao meu nome. Não sofri preconceito no mercado de trabalho e me
surpreendi ao ter passado por isso no ramo dos negócios”, recorda ele, que
fechou a loja no ano passado devido à crise financeira da rede.
Rios não desistiu da ideia de ser dono da
própria empresa e se prepara para lançar em agosto próximo a startup X Lion,
plataforma social de avaliação de funcionários e monitoramento de vendas.
“Durante os anos que tive minhas lojas, descobri que as informações passadas
aos clientes eram muito pulverizadas e os gestores nem sempre promoviam os
vendedores certos”, explica ele, que afirma já receber propostas de aporte
financeiro.
Com a experiência na prisão, o
empreendedor afirma ter aprendido não só a observar melhor o ser humano, mas
também a ser um empresário melhor. Sua história, afirma, não foi à toa. “Dentro
do presídio revesti uma caixa de madeira com isopor para vender sanduíches aos
detentos que voltavam do trabalho. Nunca deixei de ganhar dinheiro trabalhando.
Não sou um criminoso, apenas cometi um erro.”.
Nunca
deixei de ganhar dinheiro trabalhando. Não sou um criminoso, apenas cometi um
erro
Incubadora
de egressos
Casos
como os de Figueredo e Rios, que sofreram preconceito no mercado de trabalho e
no ambiente empresarial, não são raros. E para dar apoio educacional e
emocional aos que desejam trilhar o caminho do empreendedorismo, o ex-detento
Ronaldo Monteiro criou a Incubadora de Empreendimentos para Egressos, em São
Gonçalo, no Rio de Janeiro.
Como uma incubadora tradicional, o núcleo
capacita ex-detentos que desejam abrir uma empresa e os ajuda a desenvolver um
plano de negócio sólido e viável ao mercado.
“Fiz uma pesquisa com detentos aqui do Rio de Janeiro e descobri
que conseguir um emprego era a coisa mais importante para eles. Decidi
ajudá-los a gerar renda licitamente de outra maneira”, conta ele, que abriu a
incubadora há seis anos.
·De acordo com o idealizador do projeto, já passaram pela
incubadora cerca de 10 mil egressos, sendo que 400 mantiveram a empresa aberta.
Além de oficinas, a incubadora também oferece aporte e trabalha com
microcrédito para os empreendedores.
Entre os patrocinadores do projeto está a Petrobras, a Fundação
Getulio Vargas (FGV) e a Artemisia, de negócios sociais.
“Imagina um ex-detento que nunca
frequentou uma faculdade ter aulas com profissionais da FGV? Eles nunca nem
imaginavam entrar nessa instituição”, brinca Monteiro, que foi preso por
extorsão e seqüestro e cumpriu pena durante 13 anos.
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